História das Damas Brasileiras

De onde vem o jogo de damas que se joga no Brasil · Atualizado em 20 de agosto de 2026

O jogo de damas é antigo, mas a versão brasileira é relativamente recente — e o nome engana: ela não nasceu no Brasil. É o conjunto de regras internacionais aplicado ao tabuleiro menor, e foi assim que o jogo se popularizou por aqui.

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A família das damas

O ancestral mais citado é o alquerque, jogado no Oriente Médio e levado à Península Ibérica na Idade Média. Por volta do século XII, alguém no sul da Europa juntou as peças do alquerque ao tabuleiro de xadrez de 64 casas — e o jogo de damas como conhecemos começou ali.

Antes disso, porém, a família já tinha se dividido em dois ramos, e os dois sobrevivem até hoje. Um deles moveu as peças na diagonal, sobre metade das casas: é o ramo das damas brasileiras, americanas e internacionais. O outro manteve o movimento em linha reta, sobre todas as casas — é a dama turca, que por isso parece um jogo completamente diferente apesar de ser da mesma família.

Duas regras foram acrescentadas depois e mudaram tudo: a captura obrigatória e a promoção da pedra que chega à última fileira. Mais tarde apareceu a versão com tabuleiro de 10×10 que hoje chamamos de damas internacionais (em inglês), com dama voadora e captura para trás.

A lenda das damas polonesas — e por que ela é falsa

Quase todo texto sobre as damas internacionais conta a mesma história: em Paris, por volta de 1723, um nobre polonês e um oficial francês teriam aumentado o tabuleiro para 10×10 e inventado a captura para trás, a dama voadora e a lei da maioria numa única tarde. Daí o nome jeu polonais, damas polonesas.

A história é quase certamente falsa. O historiador holandês Arie van der Stoep mostrou que o Dictionnaire complet François et Hollandois, de Pierre Marin, publicado em Amsterdã em 1710, já traz a frase "Sçavez vous damer à la Polonoise?" — "você sabe jogar damas polonesas?". Ou seja, treze anos antes da suposta invenção, em outro país, num dicionário para estudantes comuns. Um jogo não aparece num livro didático na década anterior a alguém inventá-lo.

A resposta honesta é que ninguém sabe onde o tabuleiro de 10×10 surgiu. As pistas apontam para os Países Baixos: o tabuleiro maior provavelmente já era usado por lá desde 1550, e o número de pedras chegou a vinte por lado em algum momento entre 1650 e 1700. Foi uma mudança lenta, ao longo de século e meio — não uma invenção numa noite.

A versão brasileira

As damas brasileiras são exatamente essas regras internacionais jogadas no tabuleiro de 8×8 com 12 pedras. A combinação é prática: o tabuleiro pequeno é o mesmo do xadrez, fácil de achar em qualquer casa, e as regras internacionais dão ao jogo a profundidade tática que o tabuleiro pequeno sozinho não teria.

É justamente por isso que a versão pegou. Um tabuleiro de 10×10 com vinte pedras de cada lado é uma compra; um tabuleiro de 8×8 com doze já está na casa de quase todo mundo, servindo de tabuleiro de xadrez. Quem tem um jogo de xadrez tem um jogo de damas brasileiras sem saber.

Diagrama com duas sequências de captura possíveis nas damas brasileiras, em que a lei da maioria obriga o jogador a fazer a maior delas.
As regras internacionais num tabuleiro conhecido: havendo duas capturas, a maior é o único lance legal.

O sopro: a regra que desapareceu

Uma regra desapareceu no caminho: o sopro. Antigamente, quem deixava de capturar via a própria pedra ser retirada do tabuleiro pelo adversário. O sopro saiu das regras oficiais — hoje a captura é simplesmente obrigatória, e tem que ser a maior.

A mudança faz mais sentido do que parece. O sopro punia a desatenção com a perda de uma pedra, mas dependia de o adversário perceber e reclamar — ou seja, fazia parte do jogo uma disputa que não era sobre o tabuleiro. Tornar a captura obrigatória resolve a mesma coisa sem discussão: o lance errado simplesmente não existe. É assim que funciona aqui, onde o tabuleiro só oferece os lances legais.

Damas-64: onde a versão brasileira compete

Na competição internacional as variantes de 8×8 são agrupadas sob o nome damas-64, pelo número de casas, em oposição ao jogo de 10×10. A Federação Mundial de Damas (FMJD) organiza campeonatos mundiais nesse ciclo desde 1985, e o primeiro deles foi justamente de damas brasileiras, no Brasil. Outros vieram em cidades brasileiras em 1987, 1989 e 1993, e houve mundiais femininos da variante em 2007 e 2018.

O circuito atrai enxadristas e damistas de fora do Brasil — grandes mestres do jogo de 10×10 aparecem com frequência, porque as regras são as mesmas que já conhecem. Essa passagem de um jogo para o outro é a melhor prova de que o tabuleiro menor não produziu um jogo menor.

O jogo hoje

As damas brasileiras são disputadas em torneios oficiais e têm federação própria — a Confederação Brasileira de Jogo de Damas, que representa o país na FMJD. A versão também é popular fora do Brasil, onde costuma aparecer com o nome de Brazilian draughts. Para a maioria das pessoas, porém, ela continua sendo o que sempre foi: o jogo da mesa de bar, da praia e da sala de casa.

Jogue um pedaço dessa história

A melhor forma de entender por que essas regras venceram é jogar uma partida. Abra o tabuleiro com as damas brasileiras selecionadas — as regras completas estão a um clique, mas o tabuleiro marca sozinho cada lance possível. Se preferir treinar sozinho, há três níveis contra o computador.

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